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Truque animal: a curiosidade escondida da ave no filme 'Hamnet'; favorito ao Oscar

Conheça o gavião que rouba a cena no filme 'Hamnet' e encanta crítica A poucos dias do Oscar, as especulações sobre os favoritos ganham força. Entre a rob...

Truque animal: a curiosidade escondida da ave no filme 'Hamnet'; favorito ao Oscar
Truque animal: a curiosidade escondida da ave no filme 'Hamnet'; favorito ao Oscar (Foto: Reprodução)

Conheça o gavião que rouba a cena no filme 'Hamnet' e encanta crítica A poucos dias do Oscar, as especulações sobre os favoritos ganham força. Entre a robusta lista de títulos que disputam as estatuetas, um nome em especial tem sido aposta frequente: "Hamnet". Para além do roteiro, a obra chama a atenção pela forma como a natureza se conecta intrinsecamente à narrativa cinematográfica. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp O drama, indicado em oito categorias, retrata a família de William Shakespeare e traz um olhar intenso sobre o período que antecedeu a escrita da famosa peça "Hamlet". Na adaptação dirigida por Chloé Zhao, os holofotes se voltam para Agnes, esposa do dramaturgo. O protagonismo feminino é enaltecido de forma poética, revelando o vínculo único de Agnes com o meio ambiente. Além do conhecimento sobre curas pelas plantas medicinais, o que magnetiza o espectador é sua relação singular com uma ave de rapina, que ela carrega com confiança no punho. Agnes (interpretada por Jessie Buckley) com falcão Reprodução / Divulgação / Redes Sociais Veja mais notícias do Terra da Gente: ALERTA: Toxinas banidas há décadas são achadas em aves marinhas no Brasil FLAGRANTE RARO: Câmeras filmam acasalamento de lobos-guará em reserva ecológica FOME OU CORAGEM: Vídeo mostra bem-te-vi 'pescando' filhotes de pirarucu no Tocantins A floresta onde Agnes transita é seu refúgio e local de pertencimento. Ali, a arte da falcoaria — atividade comum na época — é retratada com simbolismo. A prática não está no filme por acaso: Shakespeare era um entusiasta da atividade e, em diversas obras, fez referências a essa arte milenar. "Naquela época, a falcoaria tinha forte influência na cultura e na linguagem, principalmente nas artes", comenta o biólogo e falcoeiro Alexandre Crisci Pessoa, que lembra que até no clássico "Romeu e Julieta" há menções à atividade. "Há um trecho famoso em que Julieta, ao chamar por Romeu, proclama algo como 'Ah, se eu tivesse a voz de um falcoeiro para atrair esse rapaz de volta', fazendo uma analogia direta ao 'retorno' da ave ao seu tutor", acrescenta o biólogo. Em "Hamnet", o primeiro encontro entre Shakespeare e Agnes acontece justamente enquanto ela ampara sua ave no braço. A cena desperta o interesse imediato do escritor e dá início ao flerte. No desenrolar da trama, a espécie ressurge trazendo metáforas sobre o feminino, o espírito e a liberdade. Afinal, qual é a ave de Agnes? Gavião-asa-de-telha Alexandre Gualhanone Uma curiosidade dos bastidores é que a espécie treinada pela personagem é um gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus). Trata-se de um rapinante exclusivo das Américas, introduzido na Europa muito depois do período retratado, devido à sua excelente aptidão ao treinamento. Nos Estados Unidos, é conhecido como Harris's hawk (falcão de Harris), em homenagem ao ornitólogo Edward Harris. No Brasil, o gavião-asa-de-telha possui ampla distribuição, sendo encontrado de campos a ambientes urbanos. No entanto, a ave que cruza os céus brasileiros é uma subespécie diferente da utilizada no filme (que é natural da América do Norte). "O gavião-asa-de-telha ocorre do sudoeste dos Estados Unidos até o centro da Argentina. A subespécie da América do Norte é a Parabuteo unicinctus harrisi, enquanto a do Brasil é a Parabuteo unicinctus unicinctus. Elas se diferenciam principalmente no tamanho: a do Norte é maior que a nossa", explica Alexandre. Entre as características impressionantes da ave está a habilidade de caçar em grupo — um comportamento raro entre rapinantes. Segundo o biólogo, enquanto no Brasil os jovens caçam com os pais, na América do Norte grupos distintos podem se unir para abater uma presa, adaptando a estratégia conforme o ambiente e o tipo de alimento disponível. "Licença poética" ou equívoco? A arte da falcoaria em Haamnet; entenda Alexandre Crisci Pessoa Embora visualmente impactante, a presença do gavião-asa-de-telha no século XVI é um anacronismo, já que a espécie só chegou ao Reino Unido no final da década de 1960. "Se fôssemos rigorosos com a fidelidade histórica, o uso da espécie estaria equivocado. Acredito que escolheram essa ave por ser versátil e a favorita na falcoaria moderna. Ela está ali para simbolizar a arte e despertar sentimentos, não para representar o período com exatidão", pontua Crisci. Outro detalhe curioso — e considerado um "clichê" de Hollywood — é a sonoplastia. Quando o gavião de Agnes decola, o som ouvido pelo público é, na verdade, o grito do gavião-de-cauda-vermelha, frequentemente usado no cinema para representar qualquer ave de rapina por ser mais "imponente". A arte da falcoaria em Haamnet; entenda Alexandre Crisci Pessoa "O som real do gavião-asa-de-telha não é tão cinematográfico. No cinema, os diretores buscam algo que soe poderoso. Eu já ouvi esse grito 'emprestado' até em trilha sonora de novela brasileira", diverte-se o especialista. Se a produção buscasse precisão histórica total, as espécies utilizadas deveriam ser o bútio-comum (Buteo buteo), o falcão-peregrino (Falco peregrinus) ou o açor (Accipiter gentilis), aves que de fato habitavam a Inglaterra de Shakespeare. A milenar arte de treinar falcões Gavião-asa-de-telha Marco Guedes A falcoaria surgiu há cerca de três mil anos, na Ásia, como uma ferramenta de sobrevivência para garantir alimento. Com o tempo, transformou-se em esporte, símbolo de status e, hoje, em uma importante técnica de controle de fauna. "Na Idade Média, a falcoaria era um símbolo social. Era um esporte quase exclusivo da nobreza", resume o falcoeiro. Naquela época, a ave no punho denunciava a classe social: a alta nobreza portava falcões-gerifaltes e peregrinos, enquanto camponeses utilizavam o bútio-comum. As mulheres, como Agnes, também eram tutoras ativas, geralmente manejando aves de menor porte. Seja nas telas do cinema ou na natureza real, a falcoaria permanece como um elo de admiração e respeito, equilibrando a técnica humana com a intuição selvagem. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente