Empresa de Pablo Marçal transferiu R$ 4,4 milhões para MC Ryan SP para compra de helicóptero, diz PF; transação é investigada
Pablo Marçal (União Brasil) e MC Ryan SP durante a campanha de 2024, onde o ex-coach concorreu à Prefeitura de SP. Reprodução/Redes Sociais Uma empresa que...
Pablo Marçal (União Brasil) e MC Ryan SP durante a campanha de 2024, onde o ex-coach concorreu à Prefeitura de SP. Reprodução/Redes Sociais Uma empresa que tem o ex-coach e político Pablo Marçal (União Brasil) como um dos sócios transferiu R$ 4,4 milhões para a conta pessoal do cantor MC Ryan SP, preso nesta semana em uma megaoperação da Polícia Federal, para a compra de um helicóptero modelo Robinson R66 Turbine, segundo aponta o inquérito policial a que o g1 teve acesso. Além do funkeiro, a Operação Narco Fluxo resultou na prisão do MC Poze do Rodo e dos influenciadores Chrys Dias e Raphael Sousa (da página Choquei), entre outros. Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, é apontado pelos federais como líder de uma organização criminosa voltada à lavagem de dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Embora o documento aponte que os valores transferidos pela empresa R66 Air Ltda, de Marçal, sejam compatíveis com o preço de mercado do helicóptero, os federais afirmam que “a conta física de Ryan atuou fundamentalmente como um elo de trânsito para a sua própria Pessoa Jurídica”, com o objetivo de lavar e ocultar o dinheiro recebido. "O repasse massivo reflete, possivelmente, o escoamento direto dos recursos oriundos da R66 Air LTDA (empresa de Pablo Marçal). Portanto, a utilização da conta pessoal para receber e transferir imediatamente a totalidade dos valores (evasão imediata) configura a tipologia do 'Uso de Contas de Passagem', visando dificultar o rastreio da origem real e a identificação do beneficiário final econômico", afirmou. Como um backup no iCloud derrubou o esquema que levou à prisão de MC Ryan SP e MC Poze do Rodo O g1 procurou Pablo Marçal para comentar o assunto, e, por meio de nota, reconheceu a transferência de dinheiro para o funkeiro, mas disse que se trata de pagamento por uma transação imobiliária entre os dois. "Sobre a referida operação financeira, trata-se de uma transação imobiliária onde uma das empresas de Marçal comprou um imóvel do Ryan, e parte do pagamento foi realizado através da transferência bancária citada, todo o processo de compra passou por diligências e compliance necessário para realização do negócio, que foi devidamente documentado e registrado em cartório e nos órgãos responsáveis, caso haja necessidade apresentaremos toda a documentação comprobatória as autoridades em tempo oportuno, se solicitado", disse a nota. No inquérito, os investigadores da PF lembram que, em 2024, MC Ryan SP "atuou como apoiador público da candidatura de Marçal" na disputa pela Prefeitura de São Paulo. O influenciador também participou de entrevistas no programa Marçal Talks, criado nas redes sociais pelo ex-coach. Segundo a Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios (RedeSim), do governo federal, além de Pablo Marçal, a empresa R66 Air Ltda tem como sócia uma outra empresa ligada ao ex-coach: a Marçal Participações LTDA. A Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios (RedeSim), do governo federal, além de Pablo Marçal, a empresa R66 Air Ltda tem como sócia uma outra empresa ligada ao ex-coach: a Marçal Participações LTDA. Reprodução/Governo Federal Operação Narco Fluxo Grupo ligado a MC Ryan SP lavou dinheiro do tráfico de 3 toneladas de cocaína, diz PF A Operação Narco Fluxo, realizada na quarta-feira (15), desarticulou uma organização criminosa suspeita de lavar mais de R$ 1,6 bilhão provenientes do crime organizado. A ação resultou na prisão dos funkeiros MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, além dos influenciadores Chrys Dias e Raphael Sousa (da página Choquei). A polícia confiscou um grande patrimônio de luxo que servia para ocultar a origem ilícita dos recursos. A PF divulgou o balanço consolidado dos bens apreendidos: 55 carros de luxo e motocicletas (avaliados em mais de R$ 20 milhões); 120 armas e munições; 56 itens de joias e relógios (incluindo modelos da marca Rolex); 53 celulares; 56 mídias eletrônicas (computadores, tablets e notebooks); R$ 300 mil em espécie; US$ 7,3 mil em espécie (algo em torno de R$ 36 mil); Documentos e registros financeiros. Carro de luxo, dinheiro e relógio Rolex apreendido em operação da PF contra funkeiros e influenciadores Reprodução Entre os itens de maior destaque estão uma Mercedes-Benz G63 rosa de R$ 2 milhões e uma réplica de um carro de Fórmula 1 da McLaren, encontradas na mansão de Chrys Dias. Na residência de MC Ryan SP, os agentes apreenderam um colar de ouro com a imagem de Pablo Escobar emoldurada pelo mapa de São Paulo. Detalhes da Operação Narco Fluxo A ofensiva foi um desdobramento das operações Narco Vela e Narco Bet, realizadas entre 2023 e 2024, que já investigavam a exportação de drogas e o uso de apostas para ocultar valores. No total, 200 policiais federais foram mobilizados para cumprir 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão. A ação ocorreu simultaneamente em oito estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná e Goiás) e no Distrito Federal. O esquema de lavagem de dinheiro Segundo a investigação, a organização utilizava o setor artístico e o entretenimento digital como fachada para "limpar" recursos ilícitos. O dinheiro tinha origem no tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína enviadas ao exterior, além de apostas em bets ilegais e rifas digitais clandestinas. Para ocultar os valores, o grupo aplicava técnicas complexas: Smurfing: Realização de centenas de transferências fracionadas em pequenos valores para evitar o radar do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf); Empresas de fachada e laranjas: Utilização de produtoras musicais, como a Bololô Records, e estabelecimentos como o Bololô Restaurant & Bar, para misturar receitas legítimas com dinheiro do crime; Criptoativos: Conversão de valores em moedas digitais para dificultar o rastreio das autoridades; Influenciadores de massa: Uso de figuras públicas com milhões de seguidores para movimentar quantias sem despertar suspeitas imediatas nos sistemas de conformidade bancária. Perfis de milhões de seguidores fora do ar Após as prisões, as contas oficiais de MC Ryan SP e do influenciador Chrys Dias no Instagram foram retiradas do ar. O funkeiro, apontado como o artista mais ouvido do Brasil no Spotify, reunia mais de 15 milhões de seguidores na rede social, enquanto Chrys Dias somava mais de 14 milhões. Atualmente, usuários que tentam acessar as páginas se deparam com a mensagem de que o conteúdo não está disponível. Questionada sobre a suspensão dos perfis, a Meta informou que não irá comentar o caso. O que dizem as defesas A defesa de MC Ryan SP afirma que o artista é íntegro, que todas as suas transações são lícitas e que os valores em suas contas possuem origem comprovada. O advogado de MC Poze do Rodo informou que ainda não teve acesso aos autos, mas que se manifestará na Justiça para restabelecer a liberdade do cantor. A defesa de Raphael Sousa sustenta que seu vínculo com os investigados é estritamente publicitário, referente à comercialização de espaço de divulgação digital. A defesa de Chrys Dias não foi localizada até a última atualização desta reportagem.