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Brasileira conta como foi aliciada para Epstein em São Paulo por US$ 10 mil: 'Me negociaram para prostituição'

Entenda a relação das pessoas mais poderosas do mundo com o empresário Jeffrey Epstein, acusado de explorar mulheres e meninas Aviso: essa reportagem contém...

Brasileira conta como foi aliciada para Epstein em São Paulo por US$ 10 mil: 'Me negociaram para prostituição'
Brasileira conta como foi aliciada para Epstein em São Paulo por US$ 10 mil: 'Me negociaram para prostituição' (Foto: Reprodução)

Entenda a relação das pessoas mais poderosas do mundo com o empresário Jeffrey Epstein, acusado de explorar mulheres e meninas Aviso: essa reportagem contém descrições de cenas de sexo Ana saiu de casa aos 16 anos para perseguir o sonho de ser modelo. Chegou a trabalhar com uma agência no Sul do Brasil, mas um ano depois os trabalhos não apareciam. Foi então que o dono da agência lhe disse que uma amiga de São Paulo, de outra agência, faria uma visita e gostaria de conhecê-la. A conversa aconteceu e Ana conta que foi convidada a trabalhar na capital paulista. Era o começo dos anos 2000 e a proposta pareceu boa. Seus pais apoiaram a decisão: ela moraria na casa dessa mulher, com outras meninas, e teria oportunidades na maior cidade do Brasil. Ana, cujo nome verdadeiro não será revelado a seu pedido, diz ter embarcado para São Paulo, com passagem paga, pouco antes de completar 18 anos. MPF abre investigação sobre possível conexão do Brasil com rede de Epstein Arquivos do caso Epstein têm citação a jovem pobre da periferia de Natal; veja 'Grande grupo brasileiro': o elo do caso Jeffrey Epstein com o Brasil revelado Mulher descreve encontro com Epstein em São Paulo e conta à BBC News Brasil que foi aliciada por brasileira por 10 mil dólares; relato foi corroborado por documentos revisados pela reportagem e pelos arquivos do caso divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA Arte/BBC Quando chegou, a mulher que a convidou, que nesta reportagem chamaremos de Lúcia, pediu para ficar com seus documentos sob o pretexto de que faria um passaporte, conta a brasileira. Segundo Ana, Lúcia passaria meses sem devolver sua documentação. A mulher também anunciou, de acordo com Ana, que ela agora tinha uma dívida que precisaria saldar, já que sua passagem aérea havia sido paga, além de um book de fotos. Ana disse que descobriu alguns dias depois que não havia nenhum trabalho de modelo no horizonte. "A mulher era, na verdade, uma cafetina. A coisa foi se desenrolando e, quando eu vi, ela estava me negociando para prostituição", conta ela. Um dos clientes, diz, foi o bilionário americano Jeffrey Epstein. Anos depois, Epstein seria acusado de operar uma "vasta rede" de meninas menores de idade para fins sexuais. O bilionário morreu em uma cela de prisão em Nova York em 2019, enquanto aguardava novo julgamento, uma década após já ter sido condenado como criminoso sexual. Festa e hotel de luxo em São Paulo O depoimento de Ana é o primeiro em que uma mulher conta ter sido aliciada para Jeffrey Epstein no Brasil À BBC News Brasil, Ana descreveu encontros com o bilionário em São Paulo em um hotel de luxo, diz ter ido a um jantar e a ao menos uma festa na cidade com ele, além de ter feito viagens para outras partes do mundo para encontrá-lo. A brasileira disse que lhe arranjaram emprego de fachada de modelo para que ela conseguisse um visto e pudesse ir aos EUA no começo da década passada. Ela contou ainda que Lúcia, a que havia lhe prometido uma carreira na moda, cobrou US$ 10 mil de Epstein por seus serviços. O relato de Ana foi corroborado por documentos apresentados por ela e cruzado com depoimentos e informações colhidos pela reportagem. Parte das declarações também coincide com diferentes tipos de registros que compõem os arquivos do caso Epstein — um volume gigantesco de material divulgado pelas autoridades americanas desde novembro, em meio à pressão por novas investigações ligadas ao criminoso sexual. Um auditor-fiscal do trabalho ouvido pela reportagem avalia que, em tese, a situação descrita por Ana poderia ser enquadrada como crime de tráfico de pessoas. Se comprovado, potenciais envolvidos no Brasil no episódio ainda poderiam ser responsabilizados, já que existem normativas internacionais que apontam que esse tipo de crime não prescreve, diz o auditor. Há neste momento uma investigação que apura se havia uma rede de aliciamento para Epstein no Brasil, aberta pelo Ministério Público Federal após a publicação de uma das reportagens que a BBC News Brasil vem publicando sobre o assunto. O texto mostrou que o bilionário financiou e manteve contato com modelos no país, de acordo os arquivos. Os documentos também contêm depoimentos à Justiça americana no qual testemunhas dizem que o americano teria levado até ele nos EUA garotas menores de idade brasileiras. Já a brasileira Marina Lacerda, que mora nos EUA desde pequena, contou à reportagem ter sido aliciada por Epstein quando tinha apenas 14 anos, ao lado de outras garotas imigrantes e vulneráveis na região de Nova York. No começo de março, outra reportagem da série mostrou que o agente de modelos francês Jean-Luc Brunel, próximo a Epstein ao menos desde os anos 1980, atuou no Brasil recrutando uma adolescente para participar de um concurso de modelos no Equador em 2004. A garota contou que só não viajou com ele para Nova York porque foi proibida pela mãe. Segundo as autoridades, Brunel usava sua agência para atrair mulheres para o bilionário — e o francês acabaria ele mesmo acusado de estuprar e assediar mulheres, o que sempre negou. Preso na França, ele morreu em 2022 na cadeia, sem ter sido julgado. Brunel é uma peça central no relato de Ana a seguir. 'Ele me escolheu' Ana conta que pensou em pedir ajuda aos pais quando viu que a carreira de modelo em São Paulo era, na verdade, uma promessa vazia. "Não sabia como falar para minha mãe que me meti em uma enrascada. Eu queria voltar pra casa, mas não tinha como", diz. "Ela [Lúcia] estava com meus documentos. Eu não tinha dinheiro. Ela é quem poderia pagar minha passagem de volta. Eu estava na mão dela." A brasileira se lembra do nome e do sobrenome da mulher, mas não sabe dizer se essa identidade era verdadeira. Por isso, e também porque se trata de nome comum, escolhemos um nome fictício para ela. Ana relata que, certo dia, Lúcia a convidou para ir à casa de um grande empresário brasileiro, em São Paulo — ela pediu que o nome desse empresário não fosse divulgado para reduzir o risco de ser identificada. "Ele me chamou para falar do Epstein, que tinha um cara muito importante, o rei do mundo, chegando..." "Ele gosta de meninas mais novas", ela diz ter ouvido do empresário. Ana acredita que foi sua idade que a levou a ser chamada para a casa, já que era a mais jovem do grupo com quem morava — ela fez 18 anos poucas semanas antes de se encontrar com Epstein pela primeira vez. Passados alguns dias do encontro na casa do empresário, Ana conta que ela e outras duas garotas que viviam com ela foram levadas por Lúcia a um hotel luxuoso no Jardim Paulista, região nobre de São Paulo. A ideia, relata Ana, é que conhecessem Epstein e que ele escolhesse com qual mulher gostaria de ficar. "E aí ele me escolheu." 'Amanhã estou indo a Paris e você vai comigo' Ana relata festa com Epstein em prédio comercial em São Paulo. Getty images Depois de ser escolhida, Ana conta que subiu ao quarto do hotel paulistano com Epstein. Foi quando relatou um primeiro ato sexual — ele pediu que ela tirasse a roupa e começou a se tocar. "Comparado com os outros homens com quem estive antes, ele foi muito legal. Não teve ato sexual em si. O barato dele, pelo menos das vezes em que estive com ele, era ficar me olhando enquanto ele se tocava. Era nojento, mas...dos males, o menor." Ana diz que Epstein a achou muito bonita e então a convidou para uma festa que aconteceria alguns dias depois. Ela já falava inglês, ainda que sem fluência, e disse que ele chegou a lhe pagar aulas. Ela conta que não se lembra exatamente onde esse evento ocorreu, mas que pode ter sido na região da avenida Brigadeiro Faria Lima, distrito financeiro e que abriga empresas tecnológicas em São Paulo. "Era um prédio que tinha a ver com investimentos." Ana descreve que, ao chegar, viu que Epstein a esperava na frente do edifício. "O prédio era todo cheio de câmeras. Ele ainda fez um comentário: 'É muito seguro aqui, né?'" Foi nesse dia que Ana contou ter conhecido também Ghislaine Maxwell, companheira e cúmplice de Jeffrey Epstein, e Jean-Luc Brunel, o agente de modelos francês acusado de aliciar meninas para o criminoso. A BBC News Brasil encontrou nos arquivos do Departamento de Justiça dos EUA um e-mail de Ghislaine Maxwell na qual ela comenta uma visita a São Paulo na mesma época citada por Ana. Nas mensagens, Maxwell conversa com um alto executivo de uma multinacional, e conta a ele que ficaria hospedada no hotel de luxo mencionado. Eles comentam sobre uma festa. A BBC News Brasil confirmou com o interlocutor que a conversa e a viagem de Maxwell de fato existiram. A ex-companheira de Epstein, negou ter cometido crimes, mas está atualmente cumprindo uma pena de 20 anos de prisão após ser condenada em 2022 por recrutar e traficar adolescentes para abuso sexual pelo bilionário. Ana diz que não tem muitas memórias desse dia em São Paulo, mas que havia muitas modelos no evento. Na sua lembrança, Ghislaine Maxwell e Epstein não pareciam ser um casal. Foi durante a festa que Ana diz ter sido informada por Epstein: "Amanhã estou indo a Paris e você vai junto comigo. Já combinei com a Lúcia." Ana conta que conheceu Ghislaine Maxwell em evento em São Paulo; data coincide com viagem de Ghislaine à cidade US Department of Justice via Getty Images O passaporte e o emprego de fachada Anotação em passaporte mostra nome de agência de Brunel em Nova York Reprodução/Arquivo pessoal Segundo Ana, Epstein disse que já havia acertado com Jean-Luc Brunel que ele a contrataria em sua agência de modelos em Nova York e que o francês já tinha todos os documentos dela, entregues por Lúcia, para fazer os trâmites necessários. Ana apresentou à BBC News Brasil seu passaporte. O documento contém um visto americano de negócios e tem uma anotação com o nome Karin Models New York, em referência à agência de Brunel nos Estados Unidos à época. "Meu visto foi emitido como se eu fosse uma modelo da Karin Models, que eu nem sei se de fato existia. Eu nunca fui na agência", diz Ana. A suspeita das autoridades era de que Brunel usava a agência de modelos também como forma de atrair garotas em diversos países, inclusive menores de idade, para a rede de Epstein — o caso de Ana seria um exemplo disso. Não há nenhuma alegação de que outras agências de modelo, além das que eram geridas e controladas por Brunel nos EUA, tenham se envolvido em irregularidades. Quem pagava por esses vistos "de fachada" da agência era o próprio Epstein, segundo relato à Justiça dos EUA dado por uma ex-funcionária d agência, que depôs como testemunha. Ana conta que teve o visto cancelado depois de ao menos seis viagens aos EUA, porque autoridades em Miami teriam desconfiado de seu trabalho. "Queriam saber quem pagava pelos meus trabalhos e se eu recebia pelos EUA ou por São Paulo. Eu não sabia o que responder. Então cancelaram o meu visto dizendo que o tipo estava errado, que eu não poderia receber dinheiro nos EUA", relata. Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell participam do evento na cidade de Nova York, em 1995 Getty Images 'Você é minha' Depois daquele primeiro encontro em São Paulo, Ana conta que desenvolveu uma espécie de relacionamento com Epstein ao longo de cerca de quatro meses. Ela se lembra de um episódio, quando estavam no avião a caminho de Paris, quando Epstein disse a ela que Jean-Luc Brunel teria pedido para transar com ela. O bilionário recusou e disse, segundo Ana: "Eu não deixei porque você é minha." "Eu não sei se eu fiquei agradecida ou mais apavorada com aquilo. Ao mesmo tempo me sentia protegida por ele. Até então ele estava sendo muito legal comigo." Desde então, Ana diz que passou a olhar com receio para Brunel. "Era o lobo olhando para o carneirinho. Sempre com olhos de devorar, tanto pra mim quanto para outras meninas." Quando chegaram a Paris, ela contou que um motorista brasileiro os esperava — possivelmente Valdson Cotrin, que foi mordomo de Epstein por 18 anos e aparece em diversas mensagens com contextos de logística, inclusive o de ir buscar garotas para Epstein no aeroporto. Cotrin não é investigado nem suspeito de ter cometido qualquer crime. Em 2025, ele deu entrevista ao jornal britânico The Telegraph dizendo que não acreditava que Epstein tenha se matado na cadeia. "Quando eu bati o olho nele [Cotrin], me pareceu uma pessoa muito amedrontada, acuada. Tentei puxar conversa com ele por ser brasileiro, mas ele não deu muito papo", diz Ana. A BBC News Brasil contatou Cotrin, mas ele não quis dar entrevista. Ana lembra de estar junto com Epstein e Ghislaine em passeios em Paris, mas afirma que eles pouco conversavam. O relato de Ana desta viagem coincide com datas de e-mails que aparecem no arquivo do Departamento de Justiça dos EUA, em que Ghislaine diz que estaria com Epstein na capital francesa. Ana diz que Brunel (direita) teria pedido a Epstein para ter relações sexuais com ela Procuradoria dos Estados Unidos 'Ele fazia uns testes comigo' Ana conta ter feito passeios por Paris com dinheiro dado por Epstein. Naquele momento, o bilionário era sua única fonte de recursos. Segundo ela, os pais acreditavam que ela estava viajando a trabalho, como modelo. "Eu era tão ingênua, tão inocente. Ele me dava 300 dólares na mão. Eu saía para fazer qualquer passeio e devolvia o troco pra ele. Mas ele dizia pra eu ficar com o dinheiro", conta. "Ele fazia uns testes comigo. Deixava dinheiro no meu quarto, dentro do meu livro. E aí eu devolvia pra ele. E ele dizia que podia ficar comigo." Segundo Ana, o combinado é que Epstein pagaria US$ 10 mil a Lúcia pela visita no hotel em São Paulo e pela viagem à França. Ela relatou que Epstein só teria pagado uma parte do combinado à mulher que a levou para São Paulo. Disse ter ouvido ligações em que Lúcia cobrava o resto do valor acertado. Esse relato é condizente com um depoimento de uma ex-funcionária do agente de modelos Jean-Luc Brunel, apresentado à Justiça da Flórida em 2010. Conforme a BBC News Brasil contou, a ex-funcionária afirmou que havia uma brasileira que arrumava garotas para Epstein e Brunel quando estavam no Brasil, e que ela estaria irritada com eles por causa de uma dívida de US$ 50 mil. O nome dessa brasileira está tarjado nos documentos e essa testemunha acredita que Brunel e Epstein podem tê-la subornado em algum momento para que não falasse com as autoridades. Uma foto tirada em 12 de agosto de 2019 mostra um prédio de apartamentos de propriedade de Jeffrey Epstein em Paris AFP via Getty Images 'Um rico fanfarrão' Quando voltou da viagem à França com Epstein, Ana disse ter conseguido recuperar seus documentos com Lúcia. Pouco tempo depois, ela diz ter sido avisada de que Epstein gostaria de vê-la novamente, dessa vez sem a participação da intermediária. Segundo Ana, quando soube, Lúcia tentou ameaçá-la, ao que ela disse ter respondido: "Você me aliciou quando eu era menor de idade." Ana conta que não teve mais notícias da mulher. A essa altura, ela começou a acreditar que poderia estar em um relacionamento com Epstein. "Já não estava mais me sentindo a garota de programa. Estava achando que era namorada dele. Até então ainda não tinha caído a ficha de que ele fazia isso com muitas garotas." Ela conta que voltou a viajar com ele para Paris, dessa vez com mais uma garota brasileira, de idade desconhecida. Em um certo momento, ela diz ter ido à porta do quarto de Epstein: bateu e entrou. Afirma ter encontrado o bilionário na cama com a outra menina. "Aí eu me dei conta do que estava acontecendo. Que eram muitas." Ana diz que decidiu ignorar a situação. "O cara era legal comigo. Ele não me chamava para fazer nada, eu não tinha que transar com ele, fazer nada com ele. Só gostava da companhia, me levava em passeios." Outra viagem que fizeram, segundo ela, foi à ilha de Epstein, no Caribe, uma ilha particular nas Ilhas Virgens Americanas, pertencentes aos EUA. Ela diz que não ter visto meninas menores de idade, mas que todas pareciam muito jovens, como ela, que naquele momento tinha acabado de fazer 18 anos. Uma conversa que lhe marcou foi quando Epstein perguntou se ela usava drogas ou bebia, o que ela negou. "Isso é importante", ele teria dito. Ela lembra que uma garota australiana, que ficou dois dias no local, foi mandada embora por ter fumado maconha, o que teria irritado o bilionário. Ana conta que havia muitas mulheres na ilha, que ficavam juntas em um quarto. "E eu tinha um quarto só pra mim. Eu sentia que ele me protegia de muita coisa." Ela diz que não via nada que considerasse ilegal enquanto estava com ele. "Olhando para trás, vejo que em vários momentos ele me mandava sair de casa, fazer alguma coisa. Ir a um museu, ir às aulas [ela relata ter recebido aulas de inglês]", conta. "Não sei se acontecia algo que ele não queria que eu visse. Mas eu nunca presenciei nada. Para mim a imagem dele era legal. Tinha gostos esquisitos, gostava de meninas mais novas e de ficar rodeado delas. Um rico fanfarrão." BBC cruzou depoimento de vítima com documentos oficiais do Departamento de Justiça dos EUA Getty images 'Não tenho intenção de dizer que ele era bonzinho' Depois de cerca de quatro meses de convivência, Ana diz que começou a ficar incomodada por ter de continuar mentindo para os pais sobre o que estava acontecendo. "Então falei para Jeffrey que não queria mais ir, que queria ficar perto da família e estudar", conta ela, que vivia nesta época com a ajuda do bilionário. "Olhando pra trás, eu vejo que ele me tirou das mãos da Lúcia. Ele me salvou dela. Ela é que estava abusando de mim", diz "Ele me tratava bem. Tudo que eu precisava... Eu não precisava pedir nada. Ele me dava as coisas." Ela diz que eles só mantiveram relações sexuais uma vez. "Ele gostava de dormir de conchinha, de carinho, de massagem no pé." Ao refletir sobre sua experiência em comparação ao que se sabe hoje sobre os crimes e acusações contra Epstein, ela avalia que teve sorte. "Não tenho jamais a intenção de defender nem dizer que ele era bonzinho", afirma. "Comigo foi desse jeito, mas sinto muitíssimo pelas meninas que não tiveram a mesma sorte que eu. Acredito na justiça divina, e dela ninguém escapa, nem morrendo." Mulher diz que Epstein pagou a uma brasileira para manter relações sexuais com ela em São Paulo Getty images Caso poderia ser enquadrado como tráfico de pessoas A pedido da BBC News Brasil, o auditor-fiscal do trabalho e pesquisador Maurício Krepsky analisou o relato feito por Ana à reportagem e disse que o caso poderia ser enquadrado, em tese, como tráfico de pessoas. "O caso apresenta todos os indicadores de tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo, ainda que inserido em um contexto de exploração sexual", afirma. "A atividade de profissional do sexo é reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O que é vedado pela lei é a exploração de alguém para fins sexuais mediante coação, engano, abuso ou transporte para exploração, elementos que configuram tráfico de pessoas." Ele lembra também que há normativas internacionais que dizem que esse tipo de crime não prescreve — ou seja, pode ser analisado em qualquer momento, independentemente de quando aconteceu. Krepsky cita precedentes com esse mesmo entendimento de casos que remetem até ao período da ditadura e foram julgados recentemente. O auditor não tem envolvimento com a investigação em andamento sobre uma possível rede de aliciamento de Epstein no Brasil, que é tocada pelo Ministério Público Federal (MPF). A procuradora Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, do MPF, falou anteriormente à BBC News Brasil da importância de que potencias vítimas da rede de Epstein contem o que passaram. "É fundamental nesses casos a participação das vítimas na investigação, para que possam trazer à luz os elementos de como foi o recrutamento." Borges disse ainda que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não estão sendo investigadas no processo, e que o objetivo é entender se havia pessoas especializadas em aliciar e recrutar mulheres para fins sexuais. "As vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos que elas venham a praticar, na situação de vítima de tráfico de pessoas." Atuação de Epstein no Brasil é alvo de investigação aberta pelo MPF após reportagem da BBC: 'Participação das vítimas é fundamental' Epstein comprou apartamento em bairro nobre de São Paulo, mostra escritura 'Grande grupo brasileiro': o elo do caso Jeffrey Epstein com o Brasil revelado em novos documentos Concurso de moda, revista e recrutadora de mulheres no Brasil: os indícios da atuação de Jeffrey Epstein no país Jeffrey Epstein financiou modelos brasileiras e avisou dias antes sobre sua prisão; MPF apura citação em Natal